Carta de crédito é frequentemente vista como um instrumento financeiro “tradicional” do comércio exterior. Mas, na prática, ela é uma peça de governança: define como risco, prazo e conformidade serão administrados entre comprador, vendedor e bancos em uma operação internacional.
Para a gestão, o valor real não está apenas em garantir pagamento. Está em criar previsibilidade e reduzir exposição em ambientes onde logística, documentação e regulação podem falhar. Em cadeias globais, a carta de crédito se torna ainda mais relevante quando há alta variabilidade logística, novos fornecedores, mercados com maior risco percebido ou transações com maior valor unitário.
O que muitas empresas subestimam é que esse instrumento não é “só do financeiro”. Ele depende diretamente da execução operacional e documental do embarque.
O que é carta de crédito e por que ela continua atual
De forma objetiva, carta de crédito (letter of credit, L/C) é um compromisso do banco do importador de pagar o exportador, desde que o exportador apresente documentos que cumpram exatamente os termos e condições previstos. O padrão internacional mais utilizado é o UCP 600, publicado pela International Chamber of Commerce, que estabelece regras e práticas uniformes para o uso de cartas de crédito documentárias.
O ponto-chave é que bancos lidam com documentos, não com mercadorias. Isso cria uma lógica particular: o exportador pode ter entregue corretamente, mas se houver discrepância documental, o pagamento pode atrasar ou ser rejeitado até que o importador aceite a divergência.
Componentes essenciais e como a estrutura influencia risco
Uma carta de crédito envolve, no mínimo:
- importador (aplicante);
- exportador (beneficiário);
- banco emissor (do importador);
- banco avisador (no país do exportador).
Em operações com maior risco, pode haver banco confirmador, que adiciona sua própria garantia de pagamento ao exportador. A escolha por confirmação altera custo e apetite a risco, mas pode ser decisiva para viabilizar negociação com fornecedores estratégicos.
Outro ponto estrutural relevante é o tipo de carta de crédito:
- à vista: pagamento ocorre após apresentação e conferência documental, dentro do prazo;
- a prazo: pagamento ocorre em data futura, criando efeito semelhante a financiamento.
A gestão precisa avaliar o efeito no capital de giro. L/C a prazo pode alongar pagamento, mas também pode elevar custo e exigir garantias.
Onde as cartas de crédito “quebram”: discrepâncias documentais
As principais falhas em carta de crédito normalmente não acontecem no banco — acontecem na cadeia documental. Discrepâncias incluem:
- datas inconsistentes (embarque, emissão, apresentação);
- descrição de mercadorias diferente da exigida;
- documentos faltantes ou fora do padrão;
- inconsistências em pesos, volumes e marcas;
- bill of lading com cláusulas não permitidas.
Há evidências consistentes de que discrepâncias documentais são comuns em operações com carta de crédito, especialmente quando há complexidade logística e múltiplos intervenientes.
O ICC Trade Register Report, publicação baseada em dados de bancos participantes, é referência para análises de risco em instrumentos de trade finance e destaca a relevância de qualidade documental na mitigação de risco.
Para a gestão, isso significa que uma carta de crédito pode reduzir risco de contraparte, mas pode introduzir risco operacional se a empresa não tiver governança documental madura.
Interseção entre carta de crédito e logística internacional
O elemento menos discutido (e mais crítico), é que o desempenho logístico determina o desempenho financeiro do instrumento.
Prazo de embarque e prazos de apresentação
Cartas de crédito têm janelas rígidas: última data de embarque, prazo máximo para apresentação de documentos e prazo de validade. Se a logística atrasar, o exportador pode perder a elegibilidade e o importador pode ter um problema de abastecimento.
Bill of lading e controle do documento
O conhecimento de embarque (B/L) costuma ser o documento central. Erros na emissão, variações de consignatário, ou mudanças de rota e transbordo podem gerar divergência. Além disso, dependendo do Incoterm e da estrutura de entrega, o controle documental define quem pode liberar a carga.
Custos indiretos de atraso
Quando há discrepância e o pagamento atrasa, a carga pode ficar parada, gerando custos como armazenagem, demurrage e reprogramação de produção. O instrumento financeiro pode se transformar em custo total adicional.
Por isso, carta de crédito precisa ser tratada como um contrato operacional, não apenas bancário.
Brasil: governança cambial e aspectos regulatórios
No Brasil, cartas de crédito se conectam ao ecossistema cambial e às práticas de compliance de bancos e empresas. A estrutura de pagamentos internacionais, registro e regras de câmbio é supervisionada pelo Banco Central. A consolidação do novo marco legal cambial (Lei 14.286/2021) reorganizou diretrizes do mercado de câmbio e capitais internacionais, com impactos em práticas e processos.
Embora a lei não trate especificamente de carta de crédito como instrumento isolado, ela é relevante porque influencia o ambiente regulatório e operacional no qual operações de comércio exterior e pagamentos internacionais são executadas no Brasil.
Para a gestão, o impacto concreto é que o desenho do fluxo financeiro, os prazos e os requisitos documentais devem estar alinhados com a política interna de compliance, com a instituição financeira e com a realidade logística.
Como decidir se faz sentido usar carta de crédito
A gestão pode usar uma lógica prática para decidir quando a carta de crédito agrega valor:
- Quando o risco de contraparte é relevante: novo fornecedor, novo mercado, histórico limitado ou transações de alto valor.
- Quando a operação exige governança e previsibilidade: mercadorias críticas, contratos longos, necessidade de padronização documental.
- Quando a negociação precisa de uma âncora de confiança: a carta de crédito pode destravar condições melhores, inclusive de preço e prazo.
- Quando não faz sentido: em cadeias maduras com alto nível de confiança e boa governança documental, modelos mais simples podem ter custo menor.
A ICC publica definições e orientações sobre técnicas de supply chain finance e trade finance que ajudam a estruturar decisões de instrumento por contexto.
Recomendações práticas para reduzir risco de execução
Alguns ajustes simples reduzem drasticamente discrepâncias e atrasos:
- Padronizar descrição de mercadoria e nomenclaturas antes da emissão.
- Revisar termos críticos: janela de embarque, documentos exigidos, prazo de apresentação.
- Treinar time e parceiros sobre critérios documentais do banco.
- Criar um fluxo de revisão documental antes da apresentação.
- Alinhar logística e financeiro: prazos operacionais precisam caber nos prazos financeiros.
O objetivo não é burocratizar: é reduzir custo de exceção, que sempre aparece nos momentos mais críticos.
Conclusão
Carta de crédito continua sendo um instrumento fundamental para operações internacionais, especialmente quando o objetivo é reduzir risco de contraparte e aumentar previsibilidade. Mas ela só entrega esse valor quando a empresa trata documentação e logística como parte da mesma arquitetura de risco.
Para a gestão, a pergunta mais importante não é “qual banco emite”, e sim “nossa operação consegue cumprir com consistência o que o instrumento exige?”. Quando a resposta é sim, a carta de crédito deixa de ser custo e vira alavanca de negociação e governança.
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